Onde está o poder dos cidadãos?
Quase a iniciar este blog afirmámos que a decisão de Mnauel Alegre de abandonar o Parlamento seria uma decisão correcta. Argumentámos e fundamentámos a nossa posição, tendo dito nomeadamente que a continuar no Parlamento, Manuel Alegre não teria qualquer "visibilidade" e muito menos capacidade de intervenção parlamentar, já que se encontaria amrarrado às directrizes de uma partido contra o qual se candidatou, pese embora ter afirmado sempre o oposto. Defendemos por outro lado que a sua continuação na A.R. não teria qualquer eficácia do ponto de vista da sua intervenção política na sociedade e muito menos que isso facilitaria o chamado movimento cívico que dizia antes sustentar.
De facto, tanto Manuel Alregre como alguns dos seus apoiantes o que vêm afirmando últimamente, é exactamente o contrário do que antes defendiam, isto é, que a sua ideia não era constituir o que quer que fosse e que o movimento em torno da sua candidatura ter-se-ia extinto após a realização do acto eleitoral, que se tratava apenas de eleger um presidente da república e fôra para isso que se candidatara.
Estas posições vêm no fundo confirmar o que os seus adversários e até inimigos políticos (especialmente dentro do próprio P.S.) sempre tinham afirmado - que não havia qualquer margem para a existência de um movimento cívico, que os partidos actuais já representavam um leque significativo da população portuguesa, bla bla bla.
Verifica-se assim que os portugueses que consideram que existe um espaço importante de afirmação independente (e muitas vezes alternativo), foram ludibriados (para não dizer traídos), por esta candidatura e particularmente pelo deputado-poeta e alguns dos seus apoiantes mais notórios.(1) Ludibriados porque mais uma vez confiaram num homem do aparelho, num homem de partido, num homem que tem uma posição práticametne vitalícia na AR, e provávelmente assim será com a sua reforma de deputado. Não se trata de dizer aqui que todos são assim ou que Manuel Alegre não tem qualidades ou que o fez intencionalmente. Nada disso. Trata-se apenas de alertar para o facto de que noutros países (e nomeadamente nos EUA, em Inglaterra e na própria França republicana e "socialista"), as associações não precisam de deputados, nem de grandes figuras públicas para formar movimentos de opinião. Aliás os movimentos de opinião do que precisam menos é de figuras públicas e mais de activismo e participação em defesa dos seus interesses legítimos.
Sabemos que em Portugal o nível de participação política dos cidadãos é baixíssimo e em geral só levanta quando há uma espécie de inimigo comum e sobretudo quando na oposição está o P.S. e no Governo o PSD ou este coligado com o CDS/PP (como sucedeu recentemente com Santana Lopes e como sucedeu mais acentuada e por vezes até violentamente, quando Cavaco Silva estava no Governo e pretendeu aumentar as portagens na Ponte 25 de Abril). À parte essas intervenções (quase sempre comandadas pelos partidos ou sindicatos ou por grupos de natureza mais do que suspeita), as maiores movimentações de massas ocorrem quase sempre junto dos estádios de futebol, horas antes de um "clássico" do futebol. E é fundamentalmente esta a participação "cívica" dos portugueses - ocorrer em massa aos estádios de futebol ou, no caso dos mais jovens, aos concertos do "Rock em Rio" (que terá certamente dezenas de milhares de portugueses descontentes com a situação do país), ou da SuperBock & Ca, ilimitada.
Com movimentos de cidadãos assim (tendo à cabeça dirigentes partidários ou chefes de claques futebolisticas), a minoria de cidadãos que se interessam realmente pelos destinos do país, bem pode esperar mais 500 anos até que os cidadãos se resolvam a constituir-se em movimento para a defesa dos seus interesses.
Quanto à justificação dos protestos, estes são mais do que justificados ainda que nalguns casos as reformas anunciadas fossem necessárias há mais de duas décadas. O problema é que as "reformas" são feitas precisamente por aqueles que colocaram na administração pública mais de 70 mil novos funcionários, são precisamente aqueles (PS e PSD), que governaram o país durante os últimos 30 anos e só agora decidiram empreender as reformas, isto é, quando já encheram os celeiros das empresas que servem e os patrocinam e fizeram subir as suas próprias fortunas e propriedades pessoais. Não se trata de dizer não às reformas, isso não faz qualquer sentido nomeadamente quando o país (e nomeadamente as classes mais favorecidas ao longo destas três décadas), vive acima das suas capacidades. Trata-se de dizer não à forma e ao modelo utilizado pelos "reformadores" do Partido Socialista, isto é, uma reforma "radical" (de facto revolucionária mas contra as populações pobres e carenciadas, como sucede com os aumentos de certos bens de consumo, com a retirada dos apoios prometidos aos agricultores, com o aumento generalizado dos combustíveis sem atender ao facto de que muitos são os que utilizam o seu veículo para deslocações profissionais), uma "reforma" aplicada cega e arrogantemente, sem ouvir as pessoas nos seus diversos sectores de actividade. Reformas gerais da sociedade devem ser levadas a cabo através de um amplo consenso e sobretudo não contra as populações de uma forma geral mas sobretudo fazendo pagar aos que durante anos tiveram lucros fabulosos.
Mas os cidadãos protestam também cega e surdamente, nas tascas, nos cafés, em casa ou com os amigos e vizinhos, mas não se ouve um único businão em frente aos ministérios e Sócrates e os Irmãos Dalton que o acompanham sempre de perto, bem podem dormir descansados e fazer todo o mal que puderem para finalmente partirem também descansadamente ao fim de 4 ou mesmo de oito anos de mandato. Ao fim e ao cabo foi para isso que estes mesmos cidadãos descontentes lhe deram a vitória por maioria absoluta. Agora queixem-se...
