O PCP, a Classe Operária no Paraíso

Blog destinado a revelar e sempre que possível a evidenciar as virtudes dos dirigentes e chefes da classe operária portuguesa e a promover a ascensão da mesma ao Paraíso, lugar por determinismo e vocação, onde moram todas as revoluções e em especial as desencadeadas em nome dos superiores interesses das classes mais oprimidas.

Domingo, Novembro 28, 2004



Um "comunismo" de sobrolho carregado




Os dirigentes do PCP (tal como os dirigentes do antigo leste estalinista), podem também definir-se de acordo com o seu semblante e especialmente do seu sobrolho.

Se é raro um dirigente "comunista" deixar escapar um sorriso, certo é que este deverá ser o mais contido e menos humorado possíuvel, não vá os adversários ou inimigos poderem ver nisso um sinal de fraqueza ou menos firmeza de convicções. É importante pois que o sobrolho esteja carregado, dê assim um aspecto de severidade ao personagem.

Ora do que na verdade precisam os partidos comunistas (e porque herdeiros de uma ideologia que não previa a miséria mas sim a abundância, não previa a infelicidade mas sim o contrário, não previa a tristeza mnas sim a alegria), é de tudo menos de dirigentes de sobrolho carregado, os quais carregam em si não só as frutrações mas também o miserabilismo que destinaram às suas vidas e às dos outros que neles confiam cegamente.
As convicções não se medem pelo martelar silábico e compassado ("a luta continua" é um grito que ecoa como se fosse um canto desbragado mas carregado de liturgia), para que as inverdades e a ineficácia das estratégias passem por aquilo que não são, nomeadamente no cérebro dos militantes e simpatizantes.

Mas os homens de sobrolho carregado, mesmo quse sem oposição (e a maior parte desta ficou silenciosa mesmo quando um ou outro camarada era apupado ofensivamente), são a escolha possível no quadro actual do Partido. Não tenham pois ilusões aqueles que gostariam de o mudar para algo em conformidade com as origens (Marx, Engels e o Lenine do "Que Faire?"). Nós também já lá passámos, nós também (e muito antes dos chamados "dissidentes"), acreditámos que um dia seria possível mudar. Mas não é.

Não se esqueçam de um dado fundamental a ter em conta: as vossas vidas não são eternas e esperar por uma "refundação" do partido a partir de dentro é o mesmo que esperar que o Partido Socialista seja um partido marxista e não encerre o pouco de socialismo que tem nas suas artérias, numa qualquer gaveta de necrotério. Dura milénios e vocês, tal como eu, estarão mortos e absolutamente esquecidos se nada fizerem.
As refundações fazem-se com o devido tempo (isto é, rápidamente), oportunamente e não à espera que aqueles militantes que vão aos Congresos do PCP possam sequer estar em condições (diríamos até mentais no caso da maioria), de proceder a qualquer mudança a não ser aquela que faz mover um pé atrás do outro. Nada mais há a esperar.
Sejam eles operários ou pequeno-burgueses´, é igual.

As refundações fazem-se (de preferência com operários lúcidos e não com idiotas que passam todo o tempo a ver telenovelas e concursos), com os militantes ou simpatizantes que sentem que têm o testemunho narxista nas mãos e precisam de correr e ganhar tempo. Não se pode pedir a um atleta de velocidade que fique a moderar a corrida à espera que os outros passem por ele mesmo quando são estes que estão numa corrida de fundo.
Os homens do sobrolho carregado são maratonistas convictos. Não se importam que os séculos passem e os povos vivam na miséria e no obscurantismo, porque têm sempre aquela fé cega na eficácia do determinismo histórico - os "amanhãs que cantam" afinal só cantam para eles (e parece que dançam também e até o pimba!). Mas quem tem a juventude (e o Marxismo tal como todas as vanguardas que o são e foram, tal como o Surrealismo e o Situacionismo, são a juventude das ideias e de todas as utopias), têm de fazer jus a essa condição. E ser jovem não é estar parado à espera que um partido velho e à beira da sua decadência e desagregação total venha um dia a permitir a sua própria refundação. É da essência deste tipo de partidos ser profundamente anti-dialéctico e não permitir a sua mudança a partir do interior. Nunca.

Sábado, Novembro 27, 2004



A escolha suicidária




A escolha de Jerónimo é uma opção suicidária. Não está mal para este partido fechado sobre si próprio e "orgulhosamente só" (como os velhos estalinistas também eles antigos operários e que levaram o comunismo e os seus ideais a uma total bancarrota), mas poderá estar mal e estará certamente para a classe que o dito diz representar e se arroga em pretender representar. E esse é o grande problema. E drama.

O partido pode regressar a uma certa memória do interior da fábrica (se é que ainda se recorda de como é), mas não vai responder pelos anseios dos que lá sempre trabalharam enquanto Jerónimo se transformou num funcionário e deputado do partido.

A memória dos tempos de operário não é contudo a realidade de um país. E muito menos responde aos problemas complexos da mesma nos tempos que correm.

Terça-feira, Novembro 23, 2004



Mudar ou não mudar



O receio maior dos partidos do Poder e do próprio Partido Socialista e Bloco de Esquerda seria a escolha de um Carvalho da Silva, considerado por muitos como menos ortodoxo e também com maior conhecimento dos "dossiers". Carvalho da Silva provávelmente adoptaria uma táctica mais abrangente, tentando ir buscar apoios em todos os sectores da sociedade e em especial junto das classes trabalhadoras, operárias e não. Todos os partidos ficaram pois satisfeitos com a opção do CC por Jerónimo pois este a ir buscar apoios será junto dos sectores mais sectários fazendo o partido atingir a barreira dos 3% para baixo e ficando assim ao nível de outros partidos "comunistas" europeus.

Claro que essa escolha cabe aos militantes mas isso não nos tira o direito de ter uma opinião já que não existe um monopólio do saber e muito menos no que respeita ao discutirmos o que verdadeiramente interessa à classe operária e aos proletários portugueses, nos quais enquanto assalariados nos integramos. Em nosso entender já teria chegado o tempo do Partido Comunista escolher (ou melhor dizendo, votar secretamente), o nome de alguém da esfera das artes ou das letras (e o partido tem alguns membros influentes nessa área), e não alguém que vai repetir exactamente os mesmos erros de análise e de táctica que tiveram os secretários-gerais anteriores.
Alguém que seja capaz de fazer uma autocrítica quando esta tem sentido, em vez de a calar. Alguém capaz, por exemplo, de abordar os vários temas sociais e políticos sem quaquer tabu ou hesitação, incluindo a arbtrariedade das prisões políticas em Cuba, a democracia directa na eleição dos delegados ao Congresso e outras. Alguém capaz de chmar os bois pelos nomes e ir ao fundo dos problemas em vez de ficar nos slogans habituais.

Um alguém como esse certamente levaria o partido para uma nova fase do seu combate contra as forças de direita e neo-liberais e contra o sistema capitalista, recolocando ao mesmo tempo questões práticamente abandonadas - nomeadamente a de se saber se o Comunismo é ainda um ideal e se vale a pena lutar por ele ou se pelo contrário é parte da essência do mesmo, produzir os erros e os desvios que foram produzidos ao longo de décadas de poder.

Segunda-feira, Novembro 22, 2004

Obrigado

Ao Fernando Penim Redondo do Blog "DOTeCOMe", agradeço a recomendação para visitar o forum incluído no seu blog e também a recomendação que ali fez através de um link para o nosso aqui.

Já retribuí a visita e além da inclusão do link para o "DOTeCOMe", espero aqui tecer algumas considerações sobre alguns dos textos ali expostos, nomeadamente quanto à escolha de Jerónimo para o cargo de Secretário-Geral do Partido Estalinista.

Domingo, Novembro 21, 2004



A "gozação" de Jerónimo



Pacheco Pereira fez bem em fazer um reparo crítico e um alerta contra a "gozação" a Jerónimo de Sousa (segundo os seus próprios termos), por ser (ou ter sido) operário. E mais acrescenta o lúcido comentador: "...como se essa condição fosse um impeditivo ou uma menor valia para o exercício do cargo de dirigente de um dos principais partidos portugueses."

E é verdade. O ter origem operária (ou sê-lo), não é só por si impeditivo ou uma "menor valia" para o exercício do cargo de dirigente de um dos principais partidos portugueses. No caso comunista, diríamos nós, que à partida seria até uma condição essencial. Ao fim e ao cabo trata-se do "partido da classe operária".
Mas não creio que seja isso que indigne os partidários da "gozação" (como lhe chama talvez exageradamente Pacheco Pereira). Se é verdade que há os que gozam (e nestes poderão de facto estar incluídos quer os bloquistas quer os aduladores do demagogo "para o avô e para o bébé"), também não é menos verdade que há os que não gozando mesmo nada, estarão contra a escolha de Jerónimo não pela circunstância de ser operário (ou ter sido, melhor dizendo), mas sim por ser um "operário" estalinista, perigoso para todos aqueles que se opôem a essa linha dura. Estaline, não o esqueçamos, também era operário. Muitos dos dirigentes estalinistas dos vários PC´s de Leste eram operários. Mas no caso da Polónia e da Roménia, por exemplo, eram operários que enjaulavam operários e que os acusavam de ser fascistas (eu recordo-me quando estava no Partido de ouvir essa acusação da boca de dirigentes locais do partido, os tais que vinham para as "sessões de esclarecimento" dos camaradas). Logo, não é a condição em si que fomenta a "gozação" - e não creio que os partidários de uma linha comunista menos ortodoxa mas fiel aos princípios básicos do marxismo (o que não tem rigorosamente nada a ver com o reformismo e o revisionismo, diga-se de passagem), esteja em fase de "gozação, antes pelo contrário. Está em fase de preocupação, isso sim!.

É claro que Pacheco Pereira, tal como muitos que observam de fora, não tem no corpo a marca dos dentes dessa hidra de várias cabeças e por isso tanto lhe dá que seja duro ou não, o operário ou o funcionário público que o Partido Comunista escolhe para seu Secretário-Geral. Há certamente operários no partido que se negariam a condenar camaradas por pensarem de maneira diferente. Porque não escolhem então um desses?
Aliás toda a burguesia, a mais lúcida e culta mas sobretudo a nova-rica, neo-liberal e reaccionária, não consegue esconder ou sequer disfarçar o entusiasmo e um imenso regozijo interior ao ver o Partido Comunista (melhor dizendo Estalinista), optar pela escolha de um operário como Jerónimo de Sousa. Qualquer pessoa com um mínimo de atenção à situação política nacional e internacional, sabe que essa escolha só trará vantagens políticas e eleitorais a todos os outros partidos e até provávelmente ao MRPP, quase extinto. No caso dos bloquistas, Fernando Rosas até achou por bem nem se pronunciar já que se tratava de um assunto interno do PCP. Óptimo.

Portanto, e em conclusão, quem de facto deve estar preocupado com a escolha (e não por Jerónimo ser operário, repetimos), são todos aqueles que gostariam de ver um Partido Comunista "ascender" de novo à sua infância e juventude revolucionárias, isto é, dialécticamente críticas e imaginativas, fase em que os ideais de justiça e igualdade tinham de facto algum importância nomeadamente para os comunistas e em que o debate das ideias não era acompanhado por perseguições e calúnias ou o encerramento em prisões ou campos de trabalho.
O "fim do comunismo" (como se o fim de qualquer ideal fosse o fim das organizações que o sustentam), é uma falácia que convém aos vários poderes instituídos, a começar pelos grandes partidos burgueses e pequeno-burgueses, os partidos dos endinheirados.

Não sou daqueles que acreditem que o comunismo conduza efectivamente a uma sociedade justa (já me desencatei nesse ponto), mas não creio que seja legítimo pensar que a única sorte que resta aos comunistas e em especial ao seu partido, seja o do seu desaparecimento progressivo às mãos precisamente daqueles que se declaram os seus principais guardiões. E se todos nos apercebermos do que é hoje o Bloco de Esquerda, não será fácil anteciparmos o que será este quando algum dia puder deter uma fatia importante do Poder (se hoje já fala arrogantemente e ainda não o tem!).
Interessa pois também ao Bloco de Esquerda que Jerónimo esteja lá e não um qualquer Cochise menos "ágil" mas mais sábio. O eventual triunfo de uma ala mais dialéctiva e mais atenta ao respirar da sociedade (porque é disso que se trata na defesa de um partido comunista menos ortodoxo), não interessa sobretudo aos partidos das classes mais favorecidas, incluindo o Bloco de Esquerda (se quiserem explicaremos porquê num próximo "posting").

Jerónimo de Sousa não é um afinador de máquinas mas sim um desafinador de sonhos.

Sexta-feira, Novembro 19, 2004


Jerónimo, representante máximo da classe operária



Antes de ser já o era. Jerónimo de Sousa (ao contrário de Sócrates que só o soube depois de uma cerrada votação feita directamente pelas bases do Partido Socialista), já sabe que vai ser o chefe do Partido Estalinista mesmo antes de haver Congresso ou pior ainda antes de qualquer militante do próprio partido o saber.
Aliás os militantes deste partido só sabem depois do Chefe indigitado lhes comunicar. Tal como no serviço militar, em que se enviam os recrutas para regiões diferentes da sua "para se habituarem a estar longe da família", também o PCP faz isso com os seus militantes, habituando-os desde logo a aceitar as duras condições da própria militância, as coisas não são assim tão fáceis, "para lá chegar caros camaradas...". Os militantes habituam-se a esperar e a ficar calados quando se lhes pede.

Procurámos iniciar este blog com as côres do próprio paraíso, algo ao estilo "barbie" (mas cuidado que não estamos a "tocar" na fantasia das crianças). Porque, quer queiramos quer não, são as cõres que se aproximam do paraíso que nos promete o partido estalinista, principalmente o partido gerido pelo Chefe Jerónimo.

Jerónimo, antes de ser já o era, ou seja, o Partido Estalinista nunca deixou de ser governado por Jerónimo de Sousa, logo após a saída do Chefe Superior, o tal que ameaçava arrogantemente Mário Soares, na famosa entrevista com este (Olhe que não, recordam-se?), pouco antes do 25 de Novembro. A linha dura sempre foi a utilizada desde a saída do Chefe Superior e Carlos Carvalhas representava-a o melhor que podia, com o Jerónimo a puxar os fios por detrás dos bastidores. Ninguém o via tal como em geral os bonecreiros não se vêem a manipular os robertos. Os espectadores só vêem os robertos, nunca chegam a ver os manipuladores. Mas ele esteve sempre por detrás.

Aliás no Partido Estalinista não há linhas frágeis, são todas duras. Para quem lá esteve, isso sabe-se quase desde o príncipio, quando somos ainda ingénuos e pensamos que existe realmente uma vontade de levar os operários ao Poder, uma vontade concreta de combater as injustiçãs sociais. Depois, quando chegamos à conclusão de nos enganámos definitivamente nas opções tomadas, que somos apenas o soldado dentro do tanque a invadir a Hungria ou a Checoslováquia, somos tratados com suspeição e até indiferença, deixamos de ter qualquer importância até como pessoas ("o camarada precisa de descansar e de se tratar", dizem-nos).

Carlos Brito, Zita Seabra, José Magalhães, todos eram da linha dura, a única aliás possível, a única permitida pelos manipuladores. E não se enganem os incautos - durante muitos anos, trazemos essa linha conosco, ficamos intransigentes e a linha nunca mais nos larga (veja-se como fala José de Magalhães agora no PS - alguém o viu alguma vez a criticar o próprio partido, como o faz por exemplo Pacheco Pereira em relação ao PSD?). Ficamos sempre assim. Bom, quase sempre...