Um "comunismo" de sobrolho carregado
Os dirigentes do PCP (tal como os dirigentes do antigo leste estalinista), podem também definir-se de acordo com o seu semblante e especialmente do seu sobrolho.
Se é raro um dirigente "comunista" deixar escapar um sorriso, certo é que este deverá ser o mais contido e menos humorado possíuvel, não vá os adversários ou inimigos poderem ver nisso um sinal de fraqueza ou menos firmeza de convicções. É importante pois que o sobrolho esteja carregado, dê assim um aspecto de severidade ao personagem.
Ora do que na verdade precisam os partidos comunistas (e porque herdeiros de uma ideologia que não previa a miséria mas sim a abundância, não previa a infelicidade mas sim o contrário, não previa a tristeza mnas sim a alegria), é de tudo menos de dirigentes de sobrolho carregado, os quais carregam em si não só as frutrações mas também o miserabilismo que destinaram às suas vidas e às dos outros que neles confiam cegamente.
As convicções não se medem pelo martelar silábico e compassado ("a luta continua" é um grito que ecoa como se fosse um canto desbragado mas carregado de liturgia), para que as inverdades e a ineficácia das estratégias passem por aquilo que não são, nomeadamente no cérebro dos militantes e simpatizantes.
Mas os homens de sobrolho carregado, mesmo quse sem oposição (e a maior parte desta ficou silenciosa mesmo quando um ou outro camarada era apupado ofensivamente), são a escolha possível no quadro actual do Partido. Não tenham pois ilusões aqueles que gostariam de o mudar para algo em conformidade com as origens (Marx, Engels e o Lenine do "Que Faire?"). Nós também já lá passámos, nós também (e muito antes dos chamados "dissidentes"), acreditámos que um dia seria possível mudar. Mas não é.
Não se esqueçam de um dado fundamental a ter em conta: as vossas vidas não são eternas e esperar por uma "refundação" do partido a partir de dentro é o mesmo que esperar que o Partido Socialista seja um partido marxista e não encerre o pouco de socialismo que tem nas suas artérias, numa qualquer gaveta de necrotério. Dura milénios e vocês, tal como eu, estarão mortos e absolutamente esquecidos se nada fizerem.
As refundações fazem-se com o devido tempo (isto é, rápidamente), oportunamente e não à espera que aqueles militantes que vão aos Congresos do PCP possam sequer estar em condições (diríamos até mentais no caso da maioria), de proceder a qualquer mudança a não ser aquela que faz mover um pé atrás do outro. Nada mais há a esperar.
Sejam eles operários ou pequeno-burgueses´, é igual.
As refundações fazem-se (de preferência com operários lúcidos e não com idiotas que passam todo o tempo a ver telenovelas e concursos), com os militantes ou simpatizantes que sentem que têm o testemunho narxista nas mãos e precisam de correr e ganhar tempo. Não se pode pedir a um atleta de velocidade que fique a moderar a corrida à espera que os outros passem por ele mesmo quando são estes que estão numa corrida de fundo.
Os homens do sobrolho carregado são maratonistas convictos. Não se importam que os séculos passem e os povos vivam na miséria e no obscurantismo, porque têm sempre aquela fé cega na eficácia do determinismo histórico - os "amanhãs que cantam" afinal só cantam para eles (e parece que dançam também e até o pimba!). Mas quem tem a juventude (e o Marxismo tal como todas as vanguardas que o são e foram, tal como o Surrealismo e o Situacionismo, são a juventude das ideias e de todas as utopias), têm de fazer jus a essa condição. E ser jovem não é estar parado à espera que um partido velho e à beira da sua decadência e desagregação total venha um dia a permitir a sua própria refundação. É da essência deste tipo de partidos ser profundamente anti-dialéctico e não permitir a sua mudança a partir do interior. Nunca.



