O que é a vanguarda da classe operária?
Em primeiro lugar e dizemo-lo sem hesitações, não existe vanguarda da classe operária coisa alguma. Para haver vanguarda é preciso que haja uma dianteira, alguém que se distinga por estar adiante nos princípios, nas formulações políticas mas também culturais, nas ideias e nas práticas. Não basta dizer que se é. Se assim fosse qualquer que fosse a sua proveniência e até origem de classe, podia colocar-se à frente de um grupo de operários e chamar-se vanguarda.
A vanguarda é uma coisa mais complicada (complicação que começa logo porque é necessário estudar, aprender aprender sempre!), e sobretudo exige esse espírito adiante dos outros, alguns palmos pelo menos à frente do "respirar" dos operários comuns, a maioria dos que trabalham na fábrica e mal têem tempo (nem concedem que haja outro), para jogar aos matraquilhos quanto mais estudar as teses de Marx, Engels ou Lenine, pegar nelas e noutros autores de cultura, e partir para o combate contra a burguesia exploradora.
É preciso notar que a burguesia exploradora é também a mais capaz e a única com ideias de vanguarda (aliás todos os movimentos de vanguarda não nasceram na classe operária pois esta, como disse atrás esteve sempre distraída a jogar à malha ou aos matrquilhos e hoje é a que enche os estádios de futebol das divisões secundárias e a que vê principalmente as telenovelas).
Para que o operariado estivesse bem representado ou tivesse uma vanguarda era preciso que esta fosse tão formada e consciente política, social e culturalmente quanto o é a burguesia. O pensamento da burguesa é o dominante não apenas porque domina mas porque é o único práticamente existente. O operariado tem uma ideologia - o marxismo mas só herdou dela a parte que tem a ver com a luta continua, isto é a luta pela subsistência. Depois da luta parar um pouco e haver necessidade de formar um governo, a "luta continua" já não dá para fazer mais nada a não ser ocupar os campos e as fábricas e arruinar tudo à passagem.
Para que a classe operária tivesse realmente uma ideologia de vanguarda e fizesse uso dela consequentemente seria preciso que a estudasse bem e não a confiasse apenas a uma parte de "eruditos" pequeno-burgueses e operários tacanhos, os quais se conduzem ao Poder mas o mesmo que tem a burguesia, isto é, ficam dentro do sistema a dizer o oposto e nada mais. Entretanto a classe operária vai ficando na mesma, isto é, nem alcança poder algum nem se liberta da exploração de que é vítima ou diz ser.
Os "partidos da classe operária" (pois são vários), apenas tiveram a manha de se apropriar da ideologia marxista fazendo da mesma um instrumento para não mudar senão a sua posição nas estruturas do Poder. As centrais sindicais formaram-se incialmente com outro objectivo ams depois seguiram também o caminho dos partidos "marxistas", isto é, alcançar uma fatia importante do poder.
Não foi por acaso que os partidos burgueses e pequeno-burgueses, viram com agrado a escolha de Jerónimo de Sousa e não houve sequer qualquer discussão séria por parte destes partidos sobre as opções do lado da "classe operária". Tudo seria diferente se a escolha fosse por um intelectual como José Saramago, Barata Moura ou outro. Os partidos burgueses teriam tudo a recear se a "classe operária" tivesse na sua vanguarda, não um operário duro e limitado, estreito em relação ao seu conhecimento do Marxismo, mas alguém que pudesse encetar uma discussão profunda sobre os novos rumos a seguir no cambate contra o capitalismo e a tal burguesia exploradora. Com uma personalidade desse tipo à frente dos destinos do partido da classe operária a burguesia teria finalmente um opositor sério e esclarecido e teria todas as razões para recear.
Não tendo sido assim, a classe operária bem pode esperar mais dois ou três séculos e contentar-se em ter alguns dos seus "representantes" (mas não a vanguarda), nos parlamentos burgueses, a dizer não sistemáticamente às leis burguesas mas sim à sua continuidade nos lugares que a aquela lhe atribue cínica mas também inteligentemente.
Para ficarem quietos e repetirem sempre o memso refrão.



4 Comments:
a classe operária quer é comprar telemoveis aos filhos, pagar o empréstimo da casa e férias no Algarve. Neste país dorme-se, não se milita. Alas
A difusão de informação pressupõe a existência de, pelo menos, uma condição: interessar a alguém.
Dormir também não é mau. O pior é dormir em pé. Isto é, a ouvir os discursos...
Cara Dinah, um obrigado por nos lembrar as verdaderias aspirações da classe operária. Pelo menos desta e com estes "representantes".
Juvenal Trinca-Fortes
Caro Ze Ant: é por isso que nós aqui não difundimos informação. São apenas as nossas ideias sobre a ida desta classe operária para o Paraíso, pela mão dura e calejada de quem sabe guiá-los até lá...
Só existimos por isso, para exprimir ideias.
E um obrigado por nos ter deixado algumas palavras.
Juvenal Trinca-Fortes
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