Aprofundar a democracia interna?
Recentemente, no último Congresso do Partido Estalinista, o companheiro autarca Lopes Guerreiro elevou a sua voz naquele areópago para falar na necessidade de aprofundamento da democracia interna do partido.
O autarca do Alvito é certamente um daqueles generosos comunistas que ainda restam (restarão ainda muitos?), cuja ingenuidade natural (eu não diria cinismo como Vital Moreira insinua), vai ao ponto de imaginar um partido como o PCP a aprofundar coisa alguma e sobretudo a democracia interna.
Ora se o PCP ou qualquer partido estalinista já não aprofunda nas suas análises nem nem seus gostos (sabe-se quanto aprecia a música pimba e só se serve da outra para decorar os cenários e atrair os jovens - Ah. como os jovens se sentem atraídos pelo Partido Estalinista se este lhes der e gratuitamente um pouco de folclore rockeiro ou um pouco de pop "intervencionista"), porque razão iria aprofundar na democracia interna?
Quer a profundidade própriamente dita (a que causa vertigens), quer a de campo (a qual exige vistas mais largas), são coisas práticamente inacessíveis à maioria esmagadora quer dos membros "superiores" do Partido, quer da grande maioria dos delegados ao Congresso (e eu estive lá durante muitos anos e sei como essas coisas se faziam e fazem).
Diria mesmo que a profundidade é algo que o Partido Estalinista não concebe, nem mesmo no salto em comprimento.
Se Lopes Guerreiro e outros no partido querem ver aprodundada a democracia interna do Partido Estalinista, têm em primeiro lugar de ter democratas. Comunistas mas em primeiro lugar têm de ser democratas. Ora são precisamente estes que estão e estarão sempre em minoria. A única hipótese para aprofundar a democracia interna seria com estes o que equivale a dizer que só com um processo conspirativo isso é possível. Conspirar contra uma ditadura interna não é crime, a própria Constituição devia salvaguardar o próprio direito de conspiração em caso de partidos que não respeitassem as regras de democracia interna (não sei se lá está ou não, mas duvido que esteja).
Portanto a solução teria de passar por chamar os democratas que ainda existem no partido e os restantes (a maioria esmagadora) ficava de fora. Aliás estes ficariam bem do lado de fora, pois não precisam de ser consultados, o Chefe sabe sempre tudo por eles.
Também há uma hipótese (embora remota) dos democratas serem chamados a aprofundar algo no partido e não aparecer ninguém. Ficarem (como ficaram no Congresso), os comunistas democratas totalmente sózinhos e a porta ficar fechada, não surgir ninguém a querer aprofundar coisa alguma. É também uma hipótese a considerar.
Mas neste caso não restaria aos comunistas (aos que não estão presos à trela do Chefe), senão fazer a refundação do partido ou criar um verdadeiramente comunista (ou seja com tanto de democrata como de revolucionário), e deixar os outros (os totalitários) do outro lado da porta.



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