A "gozação" de Jerónimo
Pacheco Pereira fez bem em fazer um reparo crítico e um alerta contra a "gozação" a Jerónimo de Sousa (segundo os seus próprios termos), por ser (ou ter sido) operário. E mais acrescenta o lúcido comentador: "...como se essa condição fosse um impeditivo ou uma menor valia para o exercício do cargo de dirigente de um dos principais partidos portugueses."
E é verdade. O ter origem operária (ou sê-lo), não é só por si impeditivo ou uma "menor valia" para o exercício do cargo de dirigente de um dos principais partidos portugueses. No caso comunista, diríamos nós, que à partida seria até uma condição essencial. Ao fim e ao cabo trata-se do "partido da classe operária".
Mas não creio que seja isso que indigne os partidários da "gozação" (como lhe chama talvez exageradamente Pacheco Pereira). Se é verdade que há os que gozam (e nestes poderão de facto estar incluídos quer os bloquistas quer os aduladores do demagogo "para o avô e para o bébé"), também não é menos verdade que há os que não gozando mesmo nada, estarão contra a escolha de Jerónimo não pela circunstância de ser operário (ou ter sido, melhor dizendo), mas sim por ser um "operário" estalinista, perigoso para todos aqueles que se opôem a essa linha dura. Estaline, não o esqueçamos, também era operário. Muitos dos dirigentes estalinistas dos vários PC´s de Leste eram operários. Mas no caso da Polónia e da Roménia, por exemplo, eram operários que enjaulavam operários e que os acusavam de ser fascistas (eu recordo-me quando estava no Partido de ouvir essa acusação da boca de dirigentes locais do partido, os tais que vinham para as "sessões de esclarecimento" dos camaradas). Logo, não é a condição em si que fomenta a "gozação" - e não creio que os partidários de uma linha comunista menos ortodoxa mas fiel aos princípios básicos do marxismo (o que não tem rigorosamente nada a ver com o reformismo e o revisionismo, diga-se de passagem), esteja em fase de "gozação, antes pelo contrário. Está em fase de preocupação, isso sim!.
É claro que Pacheco Pereira, tal como muitos que observam de fora, não tem no corpo a marca dos dentes dessa hidra de várias cabeças e por isso tanto lhe dá que seja duro ou não, o operário ou o funcionário público que o Partido Comunista escolhe para seu Secretário-Geral. Há certamente operários no partido que se negariam a condenar camaradas por pensarem de maneira diferente. Porque não escolhem então um desses?
Aliás toda a burguesia, a mais lúcida e culta mas sobretudo a nova-rica, neo-liberal e reaccionária, não consegue esconder ou sequer disfarçar o entusiasmo e um imenso regozijo interior ao ver o Partido Comunista (melhor dizendo Estalinista), optar pela escolha de um operário como Jerónimo de Sousa. Qualquer pessoa com um mínimo de atenção à situação política nacional e internacional, sabe que essa escolha só trará vantagens políticas e eleitorais a todos os outros partidos e até provávelmente ao MRPP, quase extinto. No caso dos bloquistas, Fernando Rosas até achou por bem nem se pronunciar já que se tratava de um assunto interno do PCP. Óptimo.
Portanto, e em conclusão, quem de facto deve estar preocupado com a escolha (e não por Jerónimo ser operário, repetimos), são todos aqueles que gostariam de ver um Partido Comunista "ascender" de novo à sua infância e juventude revolucionárias, isto é, dialécticamente críticas e imaginativas, fase em que os ideais de justiça e igualdade tinham de facto algum importância nomeadamente para os comunistas e em que o debate das ideias não era acompanhado por perseguições e calúnias ou o encerramento em prisões ou campos de trabalho.
O "fim do comunismo" (como se o fim de qualquer ideal fosse o fim das organizações que o sustentam), é uma falácia que convém aos vários poderes instituídos, a começar pelos grandes partidos burgueses e pequeno-burgueses, os partidos dos endinheirados.
Não sou daqueles que acreditem que o comunismo conduza efectivamente a uma sociedade justa (já me desencatei nesse ponto), mas não creio que seja legítimo pensar que a única sorte que resta aos comunistas e em especial ao seu partido, seja o do seu desaparecimento progressivo às mãos precisamente daqueles que se declaram os seus principais guardiões. E se todos nos apercebermos do que é hoje o Bloco de Esquerda, não será fácil anteciparmos o que será este quando algum dia puder deter uma fatia importante do Poder (se hoje já fala arrogantemente e ainda não o tem!).
Interessa pois também ao Bloco de Esquerda que Jerónimo esteja lá e não um qualquer Cochise menos "ágil" mas mais sábio. O eventual triunfo de uma ala mais dialéctiva e mais atenta ao respirar da sociedade (porque é disso que se trata na defesa de um partido comunista menos ortodoxo), não interessa sobretudo aos partidos das classes mais favorecidas, incluindo o Bloco de Esquerda (se quiserem explicaremos porquê num próximo "posting").
Jerónimo de Sousa não é um afinador de máquinas mas sim um desafinador de sonhos.



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