No Cu de Judas, à procura da imortalidade...
Na maior parte das sociedades modernas, busca-se a imortalidade por tudo e por nada. Os intelectuais (começa-se sempre por estes), procuram a imortalidade deixando-nos obrinhas sem qualquer importância (alguns têm-na mas são os que menos alarde fazem disso). Os engenheiros de pontes deixam-nos as ditas e depois caímos nelas, a maior parte das vezes por negligência dos que vieram depois deles. Os tecnocratas também prezam a imortalidade porque estão sempre a construir coisas sem o menor significado, numa ânsia de que fiquem também na memória dos povos. Os pintores pintam coisas que depois os vindouros mijam para cima, a começar pelas gentes populares. Se não fossem os burgueses a maior parte da pintura dos séculos passados tinha ficado a servir de suporte nas latrinas ou nalgum curral. O próprio Van Gogh é exemplo disso, só o irmão e pouco mais...
Se não fossem os burgueses a pintura e sobretudo a poesia de um Mário Cesariny teria ficado submersa nos anos 50 e dali não teria passado, os surrealistas dos anos 50 eram de facto rebeldes mas agora já fazem parte da historiografia, estão nos manuais. Por pouco ficavam esquecidos. O Mário é que não deixou que tal sucedesse, o França bem queria. E a memória de surrealistas autênticos como Escada, Ricarte Dácio, Ernesto Sampaio, António José Forte, quem sabe onde pára? Teria voltado ao Monte Carlo para jantar?
E o Nicolau Saião sempre a verter a Palavra como se fosse uma fonte esquecida em plena Serra de S. Mamede!. Só alguns amigos o escutam ainda. E outros traiem-no enquanto escutam...
A imortalidade é pois uma coisa que tantos perseguem como se estivessem na caça à raposa. Mas a imortalidade é matreira, escapa-se por entre os arbustos e depois desaparece no ar, pela noite dentro...
Queremos ser lembrados como Joseph conrad, C.S.Forrester, Stevenson, Charles Dickens, T.S. Elliot, Steinbeck, Breton, Sheridan Le Fanu, Gherasim Luca, Rimbaud e tantos outros mas a memória é traiçoeira.
Fazemos tudo para que se lembrem de nós e contudo... Quando o Saramago pensa que basta receber o Nobel e ir exilar-se confortávelmente em Lanzarote. A imortalidade gosta de se escapar aos famosos.
Dizem-me os seres que por aqui poisam que isso de nada vale se ao nome não acrescentarmos mais qualquer Coisa.
Pela minha parte faço sempre os possíveis por parecer incógnito, figura sem importância alguma e nisso tenho sido bem sucedido até nas repartições de finanças e nos tribunais da democracia laica e republicana. Aliás creio que foi algo que ficou da minha origem que é qualquer coisa que nem eu próprio sei onde e como começou, já que não detenho nome de pai, só o da mãe e coitada lá está no Alto de S. João, já lá vão 3 anos, sem que tenha eu as economias próprias para lhe fazer um jazigo pequenino mas ao seu jeito, com a S. Marta (de quem era devota), com ela à cabeceira. Ela está virada para onde o Sol nasce mas a sua vida foi de uma enorme penúria, sempre na escuridão, e sempre a recusar o Eldorado, mesmo quando ao seu lado alguém lhe fazia promessas de uma vida sossegada e sentada à frente da casa, com o rio a passar defronte, numa espécie de Niagara Falls para uso pessoal. Minha mãe deve ter nascido em cima de um cemitério lá no Norte, perto de Paredes.
No Cu de Judas a imortalidade nem sequer vale como utopia. Fartas-te de escrever, de pintar, estás a pensar que um dia não serás esquecido e no dia seguinte morres, enterram-te e já ninguém fala mais de ti!. Só os lagartos, os cães pobres e os gatitos ocorrem ao teu funeral. Como não têm mais nada para te deixar, mijam-te para cima e diáriamente lá vão deixar-te as suas necessidades. É uma forma como outra qualquer de te saudarem cá de cima já que os homens te esqueceram desde a primeira hora, mal tinhas nascido. Aliás nem sequer sabem quem tu foste, não ousam sequer pronunciar o teu nome e já te tinham enterrado ainda antes de caíres para o lado.
A imortalidade é pois.
Balzac aqui? Só no nome do cão da nova-rica que veio para cá morar.
A imortalidade é uma pedra em silêncio, ao fundo do rio...