No Cu de Judas
Sexta-feira, Maio 28, 2004
  O Alentejo florido (le petit-dejeuner sur l´herbe)




Aqui no Cu de Judas, na raia entre o pior dos dois Alentejos e o pior dos dois Algarves, as marcas do homem de Cro-Magnon são visíveis por todo o lado. Por qualquer lado que pisas encontras os calhaus alisados e em ponta que outrora serviam para os antepassados dos alentejanos actuais (no cu de Judas, entenda-se), partirem os "cornos" aos outros seres, que e como quem diz, despachá-los para o Nirvana mesmo que na altura não se falasse nessa espécie de paraíso budista (aliás os mouros fascistas têm um paraíso muito melhor para os que se martiziram na luta contra os infiéis - esperam-nos nada menos do que 72 virgens, o que diga-se não é mau, é óptimo, desde que não sejam também muito novas senão lá estará, ao lado deles a espiar-lhes os testículos, também o Procurador João Guerra e os seus sequazes da nova pide laica, democrática e republicana).
Os alentejanos (no Cu de Judas, nada de confusões, refiro-me sempre a estes), continuam há séculos às portas ou debaixo de um sobreiro. Isto que vos pode parecer uma anedota (e por vezes é, sobretudo nos programas de grande audiência também muito procurados pela "comunidade" local), é contudo uma tragédia, ou melhor uma tragi-comédia. Se isto representasse o progresso das sociedades, quando chegássemos aos Estados Unidos ou ao reino da Dinamarca, as pessoas estariam todas sentadas, no metro os motoristas tinham resolvido parar e sentar-se às portas do dito. Em Nova York, o vendedor de hamburguers em plena rua abandonaria o quiosque e ia sentar-se num bar (tipo Cheers), onde pessoas normalíssimas (os Norman, os Sam, os Frazier), estariam também sentados sem fazer nada. A cerveja correria sózinha e as pessoas nem se dariam ao trabalho de encher o copo. Para não se mexerem. O próprio Presidente dos Estados Unidos da América responderia sentado aos ataques dos fascistas islâmicos, impávido e sereno, sem fazer nada para não magoar a comunidade islâmica. Toda a gente estaria sentada se o progresso alentejano, as teses do sitting bull alentejano, fossem para diante e se levantassem como doutrina geral.
Felizmente que não é assim e só aqui no Cu de Judas é que as pessoas resolveram "progredir" sentadas às portas e sob os sobreiros.
O resultado disso já o disse atrás, é trági-cómico pois ao mesmo tempo que se sentam durante séculos, servem para as anedotas e ao mesmo tempo para os slogans anti-governamentais. De vez em quando mexem-se, atrelam os tractores e vão lutar contra o capitalismo. Que ao Alentejo profundo e sentado, práticamente ainda nem sequer chegou.
No Cu de Judas 
Terça-feira, Maio 25, 2004
  Hoje dormi com os largartos




Hoje deitei-me simplesmente no chão quente junto a um lago aqui perto da minha casinha azul. Passados uns instantes vieram ter comigo alguns lizzards, uns de côr amarelada, outros verdes e com aquelas pintas ao longo do lombo. De vários tamanhos. Lindíssimos e mais livres do que eu.

Os largartos são a melhor companhia depois dos cães e dos gatinhos. Deitam-se aqui ao pé de mim e fazem-me companhia. Ficamos todos deitados ao sol. Porque não há aqui nada para fazer no Cu de Judas. As pessoas são ruins na maior parte dos casos, restam-me pois os lizzards, os cães e os gatos. Existe pois uma enorme cumplicidade entre todos nós. Quando alguêm passa por aqui perto, o cão ladra, o lagarto mexe-se e eu dou à sola para não ter que encarar o campónio, a maior parte das vezes vem ver para contar como foi. Depois toda a gente na aldeia fica a saber que eu estive deitado, todo nu a dormir ao lado de lagartos e de um cão que eles tinham abandonado.
Como podem ver, o meu blog continua deserto. E tal como nos desertos, só há lagartos e cães abandonados.
No Cu de Judas é assim. Por isso é que ninguêm liga grande importância a esta parte do país. Já lá vão séculos que o Dom Sebastião veio aqui comer uma jantarada mas com a indisposição que deve ter apanhado, comunicou com as almas dos que vieram depois dele e nunca mais ninguêm veio aqui. Mesmo o Soares bochechas, o tal que fazia as tais abertas, nunca veio aqui. Chegava-se aqui perto, começaava a olhar a linha do horizonte e depois via que o risco não estava direito e saía daqui rápidamente. Disfarçava sempre com uns compromissos que tinham surgido. O filho, provávelmente menos gordo do que é hoje, já teria nascido?
Mas a serra algarvia causa sempre essa indisposição mesmo nos políticos mais abertos. Ninguém tem pachorra para aturar esta gente. Além disso o que é que se vem ver aqui? Está sempre tudo na mesma. Sentados às portas, fartam-se de olhar, olhar a ver quem passa. Só mesmo para as anedotas dos tipos da capital. É engraçado, toda a gente gosta de contar anedotas sobre os alentejanos e de dizer como são curiosos assim sentados sem fazer nada. E o desenvolvimento do Alentejo vai-se fazendo assim. Sentados às portas.
Por isso eu refugio-me nos campos e vou dormir com os lizzards enquanto oiço um tema dos Genesis, precisamente aquele que fala de um deles. Lizzard.
Eles adoram ouvir essa.
No Cu Judas
 
"M´AVERGONHO DE ESPANTO QUE POR AQUI ME TENHO" ("No Cu de Judas", recordando Sá de Miranda).

Existe um lugar onde năo é possível residir senăo por vocaçăo ou distracção. O Cu de Judas é o pior lugar do Mundo. 0 lugar onde năo queremos estar sempre que lá estamos. É em Portugal e fica ao sul. Se pararmos por instantes a contemplar as serras ficamos por lá. Depois é o Diabo. Só se sai de lá directamente para a urna.

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