Artigo a artigo, e percebe-se o quê?
Compreendo a sua preocupação e o desejo legítimo de saber artigo a artigo em que partido ou frente política nos colocamos. Realmente o que é curioso neste confronto de ideias, preocupações e interesses em torno da União Europeia (mais desunida agora com a pretensão de meia dúzia de políticos europeus do paleolítico e que já nada dizem aos cidadãos europeus e em particular aos mais novos), é que o conceito de direita e esquerda de nada serve para explicar o que se passa e tão pouco as divergências entre os partidários de um lado e do outro. Como muito bem têm sublinhado alguns interventores mais activos (caso de Pacheco Pereira por exemplo, mas também Jorge Miranda), esta questão ultrapassa o âmbito dos partidos e das próprias ideologias convencionais. Já não faz sentido algum qualificar de direita os que votam de um lado e de esquerda os que votam de outra forma. Pode servir às aspirações dos que procuram o Poder, o ditado e a ditadura, mas não serve certamente as pessoas e sobretudo cada uma em particular. Há partidfários de direita de um lado e do outro, como os há de esquerda. A questão é pois muito mais vasta e tem sobretudo a ver com a forma como se gere a União Europeia, ou seja como a têm gerido os políticos burgueses e neo-liberais (muitas vezes disfarçados de socialistas) durante décadas, contra a legítima ambição primordial de fazer uma União em torno de comunidades distintas, passo a passo e não (nunca) apressadamente.
Quanto à questão de se saber em que discordamos ou em que concordamos, a questão é muito simples: Não se trata de contestar o artigo ou a cláusula A ou B. Há muitos aspectos com os quais concordamos, dificilmente não concordaríamos com grande parte das coisas que lá estão. O que nos parece a nós muito claro é que para além dos "problemas do texto", há sobretudo os problemas do contexto, isto é, estes políticos não nos merecem qualquer confiança para gerir a Europa Unida, estão envelhecidos e sobretudo cegos na sua arrogância e algum totalitarismo, ignoram e querem ignorar a vontade dos povos europeus e as suas diferenças e identidades próprias. Sobretudo não os querem ouvir.
Esta questão de se saber em que concordamos ou discordamos levar-nos-ia a recordar imensos tratados e constituições "democráticas", elaboradas sempre em nome dos povos. Nos artigos estava lá tudo incluindo as celéberrimas liberdades fundamentais, os direitos socais, etc. Veja-se a Constituição de Salazar de 1933. Se o povo português fosse chamado a votar essa Constituição, iria votar em função dos artigos ou em função do ditador e da política que a referendava?
Salazar contudo não se atreveu a referendar a sua Constituição como agora estes políticos por princípio também não o fizeram, deixando que alguns parlamentos "regionais" decidissem como bem entendessem, isto é, evitando o próprio escrutínio popular.
Dito isto, dirá o amigo Darwin: Não chega. Preciso de saber quais os artigos em que estão de acordo e os que estão em desacordo, só assim posso votar em consciência. Nesse caso chamaríamos a atenção para a substância que separa os defensores do Sim e dos defensores do Não - a questão do fim de uma União Europeia feita a partir das identidades próprias de cada país, o fim da igualdade das diversas entidades nacionais, os belgas, os eslavos, os portugueses, os franceses, os ingleses, os holandeses, etc. Dirá que isto já não faz sentido, com a globabilização já não faz sentido falar de nações, de identidades nacionais. E é verdade, não faz. Mas porquê a pressa em eliminá-las? Porquê fazer isso contra os interesses dos próprios que se sentem violados na sua consciência Acha bem que as coisas se façam contra a sua vontade, que uma comunidade de interesses se faça contra os interesses de grande parte dos cidadãos europeus? Porque não permitir que a aldeia global se construa por pequenos passos e a partir de consensos, não aos empurrões e muito menos contra a vontade dos próprios povos para os quais foi erigida a actual União Europeia (e é sempre bom regressar aos seus fundadores, Jean Monet e Schumann)?
Pedro Lazuli


