O perigo de admissão da Turquia
 

Desde há cerca de uma década que os americanos  vêm exercendo com alguma subtileza e diplomacia, uma pressão constante sobre os governos europeus no sentido destes admitirem a Turquia no seio da UE. Nesta questão, o interesse dos americanos é muito claro:  procuram recompensar um aliado que nunca não lhes faltou desde 1945, quer durante a guerra fria contra o comunismo quer na sua actual estratégia para o médio-oriente. Tentam assim fazer com que os europeus paguem  os custos dessa compensação.
Curiosamente, os Americanos, que exigem vistos para os seus visitantes turcos, desejam ver  os europeus abrir plenamente as suas fronteiras aos trabalhadores e às famílias turcos. O problema é que os turcos não são e nunca foram, europeus. Alguém que tenha visitado alguma vez Erzurum, Ankara ou Istambul nunca teve a impressão de visitar  uma cidade europeia, ainda que tenha podido realmente apreciar a hospitalidade e honestidade da população turca.

O facto da Turquia ter tido no passado grandes líderes, tal como Mustpha Kemal, fervorosos admiradores da civilização europeia, não faz dela um país europeu. A Europa foi construída sobre a dupla herança do Cristianismo e do Iluminismo, não a Turquia.

Hoje, este grande país proclama bem alto, a sua ambição de conciliar o Islão e a modernidade, o progresso. A experiência é interessante, mas não nos respeita. Não compete à Europa reformar o mundo muçulmano, como não lhe cabe governar o mundo chinês ou o mundo hindu. Se a civilização islâmica necessita de se reformar, essa reforma deverá ser a obra dos próprios  muçulmanos, não nossa.

Alguns espíritos explicam-nos que é necessário os islamistas turcos "moderados" na Europa, como reacção à tentativa por parte de outras nações orientais tentadas por uma versão mais extremista do Islão. É no fundo a teoria do lobo em pele de cordeiro com o alegado propósito de proteger o rebanho da matilha...

Conscientes dos seus próprios interesses, os anglo-saxónicos afirmam-se públicamente partidários do alargamento da União europeia. Os Americanos porque não desejam de facto uma Europa institucionalmente forte, capaz de um dia contestar o seu papel de liderança mundial. Os Ingleses, porque sempre sonharam com uma vasta zona de comércio livre que preservaria ao mesmo tempo a sua soberania e o seu papel de incontornável eixo das relações transatlânticas. Na sua época, o general de Gaulle já o tinha compreendido.

Sob a pressão dos anglo-saxónicos, a Europa lançou-se numa corrida desenfreada com vista ao alargamento, o que vai conduzir a que a UE tenha de acolher no seu seio vinte e cinco países, com instituições que haviam sido previstas apenas para seis e que a quinze já se encontram totalmente paralisadas. Ter realizado o alargamento da União, antes do seu aprofundamento, constitui um erro histórico, que será provávelmente fatal para a Europa institucional. A admissão da Turquia será a estocada final.

Renaud Girard
(cortesia da AIPJ.net)