Os inquietantes emires do Sahel
 
 

Washington propõe-se reforçar os controlos em toda a zona sahariana e subsahariana. Certos extremistas aí referenciados, estariam ligados a grupos próximos da Al-Qaeda.

Correrá a região do Sahel o risco, depois do Magrebe, de vir a ser utilizada como rampa de lançamento para os  grupos armados integristas com vista a atingirem  interesses ocidentais? Esta é de agora em diante, uma preocupaçao dos Estados Unidos na gigantesca operação de perseguição à Al-Qaeda,  após o 11 de Setembro de 2001.  Citando um alto responsável do departamento americano da Defesa, a cadeia de rádio "Voz da América" informou que quatro países da região, o Chade, o Níger, o Mali e a Mauritânia, estariam particularmente expostos a "penetrações terroristas" devido às suas fronteiras comuns com Estados como a Argélia, a Líbia ou o Sudão.
Anteriormente, a mesma rádio, citando outras fontes, tinha revelado a presença  de um grupo armado identificado apenas pelas iniciais - MBM - do nome do seu chefe, Mokhtar Belmokhtar.

Mapa da região do Sahel

Este argelino, que estaria directamente ligado à rede terrorista de Bin Laden, pirateia o deserto entre o sul argelino, o norte do Mali e uma parte da Mauritânia. Belmokhtar, mais conhecido pelo nome de "Belaouer" (o Zarolho) devido a uma cicatriz no olho, combateu no Afeganistão. Acusado de tráfego de armas por conta de diferentes grupos islamistas, está, desde há mais de um ano na mira do exército argelino, nomeadamente devido às suas relações com o Grupo Salafiste para a Pregação e o combate (GSPC), de Hassan Hattab, considerado próximo de Bin Laden.

No Mali, um dos cinco países mais pobres do planeta, cuja população é 90% muçulmana, o perigo de um contágio islamista é minimizado pelas autoridades. O que não as impediu de proceder, dois meses após os atentados do 11 de Setembro, à detençáo de uma dezena de pregadores "paquistaneses" alguns encontrados com documentos falsos. O exército maliano teria desencadeado uma operação militar  contra os presumíveis terroristas no seio do MBM. Esta operação não permitiu porém efectuar detenções nem desarticular o grupo, mas enviou uma "mensagem muito clara" a Belmokhtar, mostrando-lhe que a sua perseguiçao prosseguiria para lá da fronteira.  Preocupadas contudo por aquilo que consideram ser uma atitude permissiva por parte do governo maliano, fontes argelinas denunciam, por seu lado, a existência de uma "terra de ninguém" nalguns locais da fronteira entre os dois países. A localidade de El-Khalil, situada 140 quilómetros ao norte de Tessalit, ter-se-ia tornado, por culpa das autoridades malianas e de acordo com um observador argelino, numa verdadeira zona franca aberta a toda a espécie de tráfego - armas, veículos roubados e mesmo de candidatos à emigração clandestina para a Europa.

Antigo feudo da rebelião tuareg no Mali, o Adrar do Iforas, que percorre a Argélia, constituiria o abrigo ideal para os terroristas, sempre de acordo com as mesmas fontes. A cidade de Kidal ter-se-ia transformado num lugar de eleição com vista à conversão de novos membros, por parte dos "barbudos" da seita Dawa, suspeita de "preparar a cama" para um islamismo mais radical, acusação que é constestada pelos seus habitantes.  "É certo que nós abrimos as nossas emissões diárias com a leitura do Corão. Mas isso não significa que sucumbamos às sereias do integrismo religioso", insurge-se Ag Itjimit, apresentador da rádio local "Tizias." Abandonada pela maior parte das ONG que ali trabalham pelo desenvolvimento num meio nómada, devido a numerosos incidentes os quais vieram aumentar o risco de insegurança na região, a cidade de Kidal tenta hoje lutar contra a sua má imagem. Em Abeibara, situada a uma centena de quilómetros de Kidal, os militares ali colocados, entre os quais numerosos méharistas, confirmam que a calma reina na região, nomeadamente desde que Ibrahim Bahanga, ex-chefe rebelde tuareg, aceitou depositar as armas, há já um ano.  Entretanto, o Mali e o Níger deveriam expressar no terreno, a sua vontade de combater a insegurança que reina sobre a sua fronteira comum e que teria feito já 13 mortes durante os quatro primeiros meses do ano "na sequência de ataques e raptos de pessoas por parte de bandos armados transportando-se em camelos", de acordo com um comunicado oficial.

Numa entrevista à televisão estatal, o Primeiro Ministro nigeriano, Hama Amadou, havia declarado que a fronteira com o Mali "continuava a ser afectada por este tipo de banditismo. Em Agadez, outro lugar conhecido da rebelião tuareg, mas desta vez no Níger, o alto-comissário Hassane Maïga, é ainda mais categórico: "Numerosos pregadores estrangeiros tentaram implantar-se entre nós. Mas nós agradecemos-lhes a preferência e devolvemo-los sem demora à fronteira. Eu próprio, no exercício das minhas funções acompanhei à fronteira uma vintena deles", referiu.

Temendo que esta região se venha a transformar num "santuário" para os fugitivos da Al-Qaeda, o Pentágono decidiu ajudar os governos dos estados referidos, a reforçar os controlos nas suas fronteiras e a cooperar entre si. As discussões estão em curso para saber se um dispositivo em homens e material semelhante à que actualmente vigora  na região do "Corno de África" seria aplicável também à região da Africa Ocidental. A Argélia, vítima de numeroros ataques do GIA e de outros grupos armados dissidentes, entre os quais o GSPC de Hassan Hattab, foi chamada a constituir-se como o agente principal, a guarda avançada deste processo de vigilância regional. Um documento salafista teria sido encontrado na bagagem de Mohamed Atta, o chefe do comando terrorista do primeiro avião que se esmagou contra o World Trade Center, dando assim crédito à tese de que existiria uma ligação muito estreita entre  o grupo de Hassan Hattab e a Al-Qaeda.
A indigência dos Estados e a situação de permisisividade nas fronteiras implicam, no entanto, uma acção a longo prazo nestas regiões recuadas do Sahara, geralmente sinistradas pela seca e os conflitos, e nas quais as populações, geralmente nómadas, carecem de escolas, centros de saúde ou saneamento básico. Washington parece ter compreendido a urgência da situação, dado que desbloqueou recentemente numerosos programas de ajuda. Assim o USAid, a agência americana de cooperação e ajuda ao desenvolvimento, acaba de assinar com o Mali, quatro protocolos de um montante recorde de 250 mil milhões de francos CFA (380.000 Euros).

(cortesia da AIPJ.net)